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Ripícolas: Resumo de Tópicos - Clique para aceder directamente

Introdução

As zonas ripícolas incluem habitats e comunidades das margens de rios, ribeiras e lagoas. A maior parte das dos cursos de água dos Açores (ribeiras) nasce na zona central (geralmente em planalto) das ilhas a partir dos caudais oriundos das zonas de turfeiras e lagoas que avançam pelas encostas escarpadas, formando por vezes cascatas no caminho (Foto 1).

As fronteiras destes ecossistemas não são de definição fácil, pois tratam-se de sistemas em forma de faixas (tirar "um") (Foto 2), que interligam e interactuam com os sistemas terrestre e aquático. Os ecossistemas ripícolas limitam a fronteira entre sistemas terrestre e aquático dos cursos de água, constituindo uma estrutura distinta na paisagem. O nível freático é elevado e a vegetação encontra-se adaptada à elevada humidade do solo, pelo que estas zonas contêm elevada biodiversidade e produtividade biológica, sendo muito importantes em termos ecológicos, pois representam um refúgio para muitas espécies que não sobreviveriam sem essas condições.

Este ecossistema possui elevada humidade todo o ano devido à escorrência das encostas, elevado nível freático e o transbordo do leito, variando com a sazonalidade, densidade dos estratos arbustivos e arbóreos da flora ripícola. A composição e estrutura da flora é condicionada quer pelos factores hidrológicos, quer pelo clima, relevo, solos, disponibilidade nutricional, zonação longitudinal e transversal.

Foto 1: Queda de água na Ribeira de Nasc'água. Ilha Terceira. Foto: Regina Cardoso.
Foto 2: Sistema de faixas biológicas. Lagoa da Falca, ilha Terceira. Foto: Carlos Leal. 



Funções

O sistema ripícola contribui para a estabilização das margens, pois ocorre um aumento da coesão do solo através do sistema radicular. O solo torna-se mais resistente à erosão mecânica causada pelas águas.

Os leitos com vegetação ripícola abundante têm geralmente uma menor relação largura/profundidade; quando ocorrem cheias dá-se uma maior erosão do fundo do que das margens, criando leitos de troços pouco sinuosos, encaixados e estáveis. Por outro lado, na ausência de vegetação, a corrente provoca a erosão do leito e das margens, ampliando progressivamente a largura e criando troços sinuosos e instáveis. Em caso extremo ocorre o transbordo total do leito com efeitos desastrosos para as zonas circundantes (diversos exemplos nos Açores, como nas freguesias da Ribeira Quente em São Miguel em Outubro de 1997 e da Agualva, na ilha Terceira, em Dezembro de 2009).

Devido ao declive pouco acentuado e à permeabilidade dos solos, este ecossistema retém, para além da água utilizada pelas plantas e através da elevada evapotranspiração, os sedimentos resultantes da erosão hídrica em zonas adjacentes (encostas), evitando a sua deposição na água (com todas as suas implicações) e reduzindo a mobilização de nutrientes associados às partículas sedimentares.

A filtração biológica de nutrientes dissolvidos pelas plantas (e.g. nitratos), provenientes das águas de escorrência de zonas agrícolas, contribui para o controlo da eutrofização de lagoas a jusante. Este efeito de filtração é o que mais retira nutrientes ao longo do curso de água, o que constitui uma das mais relevantes funções destas estruturas para a manutenção da qualidade da água dos sistemas de água doce.

A desnitrificação, efectuada através das bactérias desnitrificantes (ESQUEMA A), em condições de anaerobiose e através da retenção microbiana, é um dos processos fundamentais à manutenção da qualidade da água. As plantas, através da absorção radicular (principalmente do estratos arbustivo e arbóreo), chegam a absorver mais de 200kg de azoto por ano, que é incorporado na sua biomassa.

Além dos nutrientes, são retidas biologicamente diversas substâncias poluentes, principalmente quando ocorrem elevados inputs de nutrientes, como é o caso dos sistemas agrícolas, normalmente responsáveis pela eutrofização dos sistemas aquáticos. As zonas circundantes às raízes suportam uma elevada biomassa de microorganismos capazes de degradar com grande eficiência herbicidas e insecticidas, entre outros compostos.

Outras funções deste ecossistema são o fornecimento de alimento para as cadeias alimentares das ribeiras, sob a forma de matéria orgânica alóctone (principalmente folhas) e a disponibilização de habitats e nichos ecológicos para muitas espécies.

Finalmente de referir o interesse paisagístico e de fruição humana, com a criação de um microclima específico com qualidade sonora (sons da água e das aves) e olfactiva notável.

Esquema A. Ciclo do azoto no solo e atmosfera. (Clique para ampliar). *CCAH.

Os nitritos surgem no solo pela acção conjunta de bactérias quimiossintetizantes nitrificantes, que convertem amónia em nitratos. Ocorre a nitrosação, onde grande parte da amónia não é absorvida pelas plantas, sendo oxidada em nitrito pelas bactérias nitrosas, que pertencem aos géneros Nitrossomonas, Nitrosococus e Nitrosolobus, que utilizam a energia libertada nessa oxidação para produzir compostos orgânicos.

(amónia)                   (nitrito)
2NH3 + 3O2 → 2H+ + 2NO-2 + 2H2O + energia

Os nitritos são libertados no solo e oxidados por outras bactérias quimiossintéticas chamadas nítricas (do género Nitrobacter). Nessa reacção de nitratação formam-se os nitratos, que são absorvidos e utilizados pelas plantas para construção de proteínas e ácidos nucleicos.

(nitrito)         (nitrato)
NO2- + O2 → 2NO3- + energia

Estas moléculas circulam entre organismos através das relações ecológicas mantidas na cadeia alimentar. A desnitrificação é o fenómeno de transformação de nitratos e outras substâncias em gás azoto molecular (N2) pela acção de bactérias desnitrificantes.

(glicose)     (nitrato)                                         (gás azoto)
5C6H12O6 + 24NO3- + 24H+ → 30CO2 + 42H2O + 12N2 + energia



Classificação

Caracterização Biológica

A elevada diversidade de habitats corresponde à variabilidade de serviços ambientais. Assim, as margens, zonas inundáveis, áreas pantanosas, ilhotas, águas rasas e profundas, implicam a presença de organismos que deles dependem como aves, anfíbios, invertebrados e peixes.

Nas zonas superiores (de cabeceira) ocorrem inúmeras espécies de briófitos, tais como Heteroclaudium eteropterum, Jugula hutchinsiae, Fontinalis anipyretica, Conocephalum Conicum nifolius, Potamogeton Rynchostegium e Schistidium. Em termos de plantas vasculares, encontramos espécies como Potamogeton polygonifolius, Potamogeton pusillus, Pimenta-de-água, Rabaça (Apium nodiflorum), Callitriche stagnalis, Cavalinha (Equisetum), Lentilha-de-água (Lemna minor), Agrião-da-água (Nasturtium officinalis) etc.

Quanto às espécies de aves presentes, entre outras encontramos a alvéola cinzenta (Motacilla cinerea patriciae); galinhola (Scolopax rusticola) ou a galinha-d’água (Galinulla chloropus). Em lagoas, podemos ainda encontrar espécies de patos residentes como o pato-real (Anas platyrhynchos), marrequinho (Anas crecca), zarro-bastardo (Aythya marila), piadeira (Anas Penelope) ou o caturro (Aythya ferina). Além destas ocorrem outras espécies como a garça-real (Ardea cinereae), garça-branca-pequena (Egretta garzetta), galeirão (Fulica atra) ou a narceja (Gallinago gallinago) e ocasionalmente a piadeira americana (Anas americana), o marreco-d’asa azul, (Anas discors), mergulhão caçador (Podilymbus podiceps), o maçarico-de-bico-comprido (Limnodromus scolopaceus) ou a narceja de Wilson (Gallinago delicata).

Quanto à fauna piscícola, tratam-se de espécies introduzidas. Ocorrem espécies herbívoras como peixes vermelhos (Gén. Carassius), ruivacas (Rutilus macrolepidotus), trutas (Salmo truta), carpas (Cyprinus carpio), achegas (Microplerus samoides), percas (Perca fluviatilis) ou ainda as trutas-arco-iris (Oncorhyncus mykiss). Quanto às espécies carnívoras, encontramos o lúcio (Esox lucius), sandre (Sander lucioperca) e as enguias (Enguilla enguilla).



Estado de Conservação e Ameaças

A agricultura, a urbanização e a construção de estradas podem promover a obstrução e impermeabilização dos cursos de água com efeitos desastrosos ao nível de cheias ou deslizamentos de terras. A fragmentação dos corredores ecológicos ripícolas pode provocar isolamento de espécies e diminuição da biodiversidade, sobrevivendo apenas espécies com um elevado potencial de dispersão.

Foto 3: Abertura de estradas incentiva a dispersão de espécies invasoras, como a "Fona-de-porca" (Solanum mauritianum). Foto: Carlos Leal.
Foto 4: Ocupação da ribeira por invasoras. Em primeiro plano tojo (Ulex europaeus) e fona-de-porca (Solanum mauritianum). Em segundo plano, conteira ou roca-da-velha (Hedychium gardneranum). Foto: Carlos Leal.

Foto 5: Ribeira próxima de estrada com espécies invasoras. Em primeiro plano, faia-do-norte (Pittosporum undulatum) e silva (Rubus ulmifolius). Em segundo plano, conteira, tojo e fona-de-porca.
Foto 6: Presença de outras espécies invasoras, como a tintureira (Phytolacca americana).



Informações Adicionais


Versão Simplificada deste ecossistema (brevemente)


Conteúdos reunidos e processados pelo CCAH-Centro de Ciência de Angra do Heroísmo.

Mais documentos em:
http://portaldoambiente.apambiente.pt:8080/maissobre/ambientequinta/Paginas/default.aspx 

http://www.inag.pt/inag2004/port/a_intervencao/planeamento/pna/pdf_pna_v1/v1_c2_t07.pdf 



BIBLIOGRAFIA

ABELHO, M., 2010. Ecossistemas fluviais - Ecologia II -Engenharia do Ambiente. Disponível em: http://www.esac.pt/Abelho/EcologiaII_LEAM/teorica/6.ZonaRipicola.pdf. Último acesso a: 12-03-2011.

GASPAR, C., BORGES, P., CARDOSO, P., GABRIEL, R. , AMORIM, I., FRIAS, A. M . MADURO-DIAS, F. PORTEIRO, J., SILVA, L. & F. PEREIRA. 2009., Açores - Um retrato natural. Ver Açor Editores, Ponta Delgada.

IPAMB. Estudar ambiente numa quinta. Galerias ripícolas.
Disponível em:
http://portaldoambiente.apambiente.pt:8080/maissobre/ambientequinta/Documents/transparencia_06_GaleriaRipicola.pdf  Último acesso a 15-03-2011.

LEITÃO, N., 2000. A vegetação ripícola como filtro biológico de nutrientes. Disponível em: http://naturlink.sapo.pt/article.aspx?menuid=4&cid=17705&bl=1&viewall=true#Go_1. Último acesso a 30-03-2011.

MORTON, B., J.C. BRITTON & A.M. DE FRIAS MARTINS, 1998. Ecologia Costeira dos Açores. Sociedade Afonso de Chaves, Ponta Delgada, 249 pp.

SILVA, L., E. OJEDA LAND & J.L. RODRIGUEZ (eds), 2008. Flora e Fauna Terrestre Invasora na Macaronésia. TOP 100 nos Açores, Madeira e Canárias. ARENA, Ponta Delgada, 546pp.